Abordar
o tema Educação de Qualidade e sua importância de maneira geral, levanta reflexões
ambíguas, que podem até, no caso de uma investigação mais profunda, apontar
certos anseios comuns ou soluções criativas e inovadoras a problemas
recorrentes. Contudo, este não é o propósito aqui. Dentre tantos vieses, escolhe-se
uma reflexão acerca do entendimento ‘educação de qualidade’, e o papel do
Estado que vê na educação, ou falta dela, uma ferramenta de controle de massa. É
proposto então, a Educação como caminho para se atingir uma meta: a liberdade.
Posto
por muitos estudiosos, a educação está ligada profundamente a melhoria da
qualidade de vida humana, ao desenvolvimento humano, como índice que evidencia
progresso econômico, enfim, são vários os dados que cotidianamente temos acesso,
e que defendem a educação como meio de se atingir as necessidades substantivas
da vida (SEN, 2017, p. 55).
Mas
como a educação afeta a vida das pessoas? O que de fato é o mais importante
para o indivíduo social, além da manutenção de sua subsistência? Ao propor uma
investigação para além de um paralelo entre educação e bem-estar humanos, procurar-se-á
identificar, pelos valores morais individuais e coletivos, a congruência destes
dois temas. Espera-se que os valores mais íntimos, existentes dentro de cada
indivíduo, quem sabe, consiga identificar os anseios solidários para a
participação da construção de uma sociedade mais justa, por meio de ações
propositivas quanto a cobrança dos resultados.
Esperamos
compreender que a Educação é um direito fundamental para além de uma frase de
impacto, e que todos os direitos fundamentais a está inserida, se realizam por
meio da vida social com a atuação do Estado Democrático de Direito. Não será um
estudo de trabalhos bibliográficos, ao contrário, deseja-se expor um caminho
que trilhe a reflexão empírica individual sobre a temática. Espera-se que o anseio da solidariedade
humana dentro de cada um, do socialista ao neoliberal, seja tocado e, que em
todos, consigam caminhar dentro da mesma linha de compreensão, reservando suas
críticas filosóficas a um segundo momento.
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| Fonte: Site www.pensador.com |
Amartya Sem defende em seu livro Desenvolvimento
como liberdade que o ser humano só é capaz de fazer escolhas livres, se
estiver preparado para compreender tais escolhas, e tiver acesso a todos os
meios e direitos humanos. Com o intuito de provocação aos os sentimentos
primários, será utilizado uma situação subjetiva.
Dentro da tese de Sen, alguém que rouba, mata e
estupra, crimes hediondos e reafirmados como impróprios por todos na sociedade,
só serão escolhas ou condenáveis, se estes que os praticam, tiverem plena
consciência de seus delitos e, antes mesmo, tiverem acesso a todos os meios de
subsistência necessários, previamente desde a infância em sua criação, para que
de fato, este consiga ter uma ação intencionalmente maléfica que fira os
direitos humanos, teria que existir neste, uma consciência formada.
A reflexão é exatamente esta: ‘então soltem os
presos de alta periculosidade e deixemos livres para suas práticas criminosas.’
Sim, partir desta provocação, uma percepção rasa, para aprofundar ao que Sen
defende em sua tese, é necessário. Não se banha em um rio antes de molhar os
pês, e diz Nieschet que águas turvas disfarçam a verdadeira profundidade.
Utilizar dos argumentos vulgarmente conhecidos, e que antecedem a compressão plena,
é o princípio. Perceber a intensidade das emoções humanas para a
autopreservação, e partir exatamente destas, para construção, ou desconstrução
de conceitos, é o que é proposto agora.
Assim, será o início. Um fato inicial e sem
profundidade, pois é necessário que se dê liberdade a todos os pensamentos, sem
taxar de errados, preconceituosos ou discriminatórios, para ir além e mais
profundamente. Para sarar a ferida, precisa-se tocar na ferida. É neste
momento, que usando o exemplo fictício, contudo real e recorrente, que será
considerado o conceito de ‘certo’ e ‘errado’ de um homem que matou e estuprou
uma menina de 5 anos com requintes de crueldade.
O objetivo é provocar a reflexão humana dentro de
sentimentos de repúdio, asco e negação, que surgem imediatamente frente a tal
atrocidade, principalmente quando se pensa na ocorrência deste feito, com
alguém de relações afetivas e familiares próximas. A reflexão sobre os direitos
a liberdade que tal indivíduo tem e teve, e consequentemente, ao final, seu
julgamento, que intimamente já é para todos independente de qualquer argumento,
a condenação sem direito de defesa.
Contudo, deixemos de lado por um momento a
personagem. Será trazido para as reflexões, um caso real de importância mundial
e um pensador neoliberal, para contrapor a própria tendência socialista, e
permitir que o convite ao pensar não seja tendencioso, e que os pensamentos
propostos se baseiem apenas em reflexões.
É necessário que cada indivíduo reflita nos casos
apresentados, desprovido de todo pensamento pragmático comportamental que o
formou até este momento. Que não se utilize de valores, sociais, educação,
religião, filosofia política e experiências acumulados, que o define.
Como segundo exemplo de análise, ‘O documentário
“O Especialista”. Este foi elaborado a partir do material obtido durante o
julgamento, em 1961, de Otto Adolf Eichmann em Jerusalém, [...] como parâmetro
de edição, para o livro de autoria de Hannah Arendt, um relato sobre a
banalidade do mal.
Resumidamente, Otto A. Eichmann, estava sendo
condenado a pena de morte por enforcamento, por ser o responsável, em alto
escalão durante o Terceiro Reich, do envio dos judeus alemães aos campos de
concentração. Sua defensora: Hannah Arendt, judia, filósofa e professora em uma
faculdade nos EUA. Hannah posteriormente, abordaria o julgamento em suas
palestras, considerando que o acusado não poderia ser condenado pelos seus atos,
pois não compreendia a gravidade de suas ações. O que lhe rendeu severas
críticas da comunidade judia mundial.
Atenhamo-nos por um momento. Otto A. Eichmann era
um homem que teve acesso a educação. Em seu julgamento demonstrou conhecimento
da filosofia kantiana ao dizer que os seus princípios deveriam estar em
harmonia com os princípios das leis gerais. Para sua defensora, o verdadeiro
problema estava na estrutura que o gerou, um indivíduo incapaz de reflexões
humanas mais profundas. Em seu livro, diz:
“era muito mais apavorante do que todas as atrocidades
juntas, pois implicava que – como foi dito insistentemente em Nuremberg pelos
acusados e seus advogados – esse era um tipo novo de criminoso, efetivamente hostis
generis humani, que comete seus crimes em circunstâncias que tornam
praticamente impossível para ele saber ou sentir que está agindo de modo errado.”
(grifo nosso). – Página 299.
Otto A. Eichmann não conseguia perceber que suas
decisões não eram livres, posto estar em um regime totalitário nazista, e sob
ordens diretas de Hitler. Afirmou por vezes que o lhe cabia era a “obediência
cadavérica”, ao fato de cumprir ordens sem questionar. Disse que se orgulhava
de seu bom trabalho logístico. Contudo, mostrou-se confuso, a partir do momento
apresentado, em julgamento, um senso moral humano e não o nazista.
É nesse contexto que se situa a tão criticada expressão “banalidade
do mal” de Hannah Arendt, que de maneira alguma remete à
trivialização do ocorrido, mas sim, ao problema da “normalidade” de Eichmann,
ao fato de que ele não apresentava, ao contrário da expectativa de Hannah
Arendt, nenhum traço de perversão ou sadismo. Assim, a ideia de que toda aquela
engrenagem perversa de eliminação de pessoas era composta por seres humanos os
quais se poderia reputar de “normais”.
Como terceiro exemplo para análise, ainda para
além das necessidades substantivas e da importância da educação, da renda ou um
pacote de bens possuídos para a formação do indivíduo, o texto de Adam Smith:
Artigos de necessidade são, no meu entender, não só os bens
indispensavelmente necessários para o sustento da vida, mas tudo que os costumes
do país consideram indecente uma pessoa respeitável, mesmo a mais humilde, não
possuir. [...], na maior parte da Europa um trabalhador diarista respeitável sentiria
vergonha de aparecer em público sem uma camisa de linho, supondo-se que não a
ter denota o desonroso grau de pobreza ao qual, presume-se, ninguém pode sucumbir
sem má conduta extrema. O costume, [...] tornou uma necessidade da vida
[...]. A mais pobre das pessoas respeitáveis de qualquer dos sexos se envergonharia
de aparecer em público” desprovido de bens comumente aceitos como
necessários e imprescindíveis. – SMITH, Wealtb of nations, 1776, vol. 2, livro
5, p. 469-471.
Smith demostra que as necessidades vão além das
posses dos bens, se encontram nos valores a que se atribuí a estes. Não basta
ter, tem que ter aquele que é aceitável para todos. E de uma forma dura, porém
realista diz “presume-se, ninguém pode sucumbir sem má conduta extrema”. Este é
o foco principal da citação do pensador: a sociedade determina o comportamento
do indivíduo, ao mesmo tempo que o condena.
Existe notavelmente o incomodo ocasionado ao
tomar refeições ao lado de maltrapilhos, da mesma forma que estes são condenados,
por aqueles incomodados, quando roubam para se alimentarem em suas casas ou
guetos. Condenam-se as prostitutas que vendem seus corpos, mesmo quando o fazem
para alimentar seus filhos criados sem a responsabilidade do homem ou para que
tenham condições de pagar seus estudos. Defendem que jovens que não trabalhem
com carteira assinada antes dos 18 anos, mas condenam os mesmos jovens, que
começam na adolescência, serem aviõezinhos para os traficantes, para ganhar
dinheiro para comprarem uma calça da moda, que o marketing define como padrão
de uso social. Condenam-se quando roubam ao “nosso” veículo, ainda não pago e,
às vezes, com prestações atrasadas, adquiridos por meio de um trabalho árduo e
fustigante. Condenam-se o estuprador que foi criado dentro de uma sociedade machista,
que durante anos relegou a mulher a função de posse, de objeto e igualmente
condenam-se o feminicídio nesta sociedade em que até 1974 a mulher assassinada
por traição, dava ao seu marido a defesa do direito da honra.
Agora evocamos a compreensão arenditiana
(referente a Hanna Arendit), a luz do conceito da ‘banalidade do mal’, que
apenas condenar os indivíduos, sem uma proposição de verdadeira oportunidade
das necessidades substantivas e, ainda, oportunizando várias formas de uma vida
digna, a sociedade reafirma que tudo é uma questão de simples escolhas
individuais ao cometer delitos, sem cor responsabilizar aquele que reafirma,
por meio de controle e carências humanas, o seu poder.
Guardemos por um momento tanto os exemplos do
assassino e estuprador de criança, o nazista Otto A. Eichmann, como a posição
de Smith. Existe uma realidade mais leve, mais amena, que faz lembrará que é
sociedade é capaz de agir de maneira mais humana e solidária. São os objetivos
do milênio, um esforço da população mundial, comprometendo-se com o
desenvolvimento humano e crescimento sustentável. Aprofundar dentro deste tema,
coloca a todos, individualmente, comprometidos com todo o planeta.
Atualmente, as grandes organizações já perceberam
que não se sustentarão com lucros sem escrúpulos, exploração até a extinção dos
recursos naturais e a ausência da participação social para melhoria de vida na
comunidade onde está inserida e de seus colaboradores. Elas se aperceberam que
para se manterem, “é necessário pensar globalmente e agir localmente”, que seus
gestores precisam de uma visão telescópica e microscópica concomitantemente.
Agora retome-se os exemplos citados para reflexão,
após lembrar, aos sentimentos inicialmente provocados, que a humanidade tem
jeito, que se organiza, que se refaz, mesmo que lentamente. O primeiro, um
assassino estuprador que claramente contraria qualquer tipo de lei em qualquer
país, o segundo, um nazista estudado que não desenvolveu em si, a sensibilidade
ou altruísmo humanos até ser confrontado aos danos causados mundialmente pela
perseguição e exterminação de milhares de judeus, e por último, o clamor social
de Smith, que evidencia a insuficiência da mera educação, que não basta ter
bens, e que existe a real necessidade de acesso as oportunidades para as quais
devam atender a vida social, por meio de um tipo de ‘status quo’.
Embora pareça distante, associar exemplos tão
distintos e de épocas tão diferentes, a confluência acontece justamente com o
Estado. Em
qualquer época ou tipo de governo, sempre coube ao Estado o dever de cuidar das
necessidades dos cidadãos. No campo das reflexões humanas, a filosofia no
decorrer dos séculos sustentou o papel do Estado como mantenedor da ordem
social.
Dentre
tantos pensadores, com suas variadas vertentes no que diz respeito à influência
estatal na ordem social, há John Locke,
teórico do liberalismo, que ressaltava
três direitos naturais: a liberdade, a propriedade e a vida, e que deveriam
ser garantidos pelo Estado; Jean-Jacques Rousseau (XVIII) que defendia a
liberdade como direito natural do homem, e também que a organização social deve primar pela
vontade coletiva pelo bem geral por meio do Estado; Charles de Montesquieu
(1748) que defendeu a racionalização das ações do Estado como mecanismo de
poder, separando e equalizando seus três poderes para uma justiça social.
Sendo
assim, cabe somente ao Estado a verdadeira capacidade de qualquer mudança
significativa dentro de uma nação. Oferecer aos seus cidadãos condições dignas
de vida, é um esforço que vai muito além de atender aos apelos sociais e
cumprimento constitucional. É necessário que o Estado esteja verdadeiramente
comprometido com o desenvolvimento humanos, e que cada indivíduo tenha de fato
a liberdade de fazer suas escolhas e ser julgado por estas. Ao banalizarmos o
mau, acreditando que tudo se dá assim pois é assim, ou seja, se pessoas são
mortas é por serem bandidos, afinal, bandido bom é bandido morto, a sociedade
dá ao Estado o poder da tirania institucional. O direito ao abuso. A
imoralidade. A ausência de solidariedade.
O
Estado é o único e principal responsável pela vida de seus cidadãos. Cabe ao
Estado a promoção de uma educação libertadora, que se ofereça reflexões
críticas aos indivíduos sobre o próprio Estado e sobre si mesmos. Não adianta
ter acesso à educação e continuar alienado do mundo, temos o caso de Otto. Não
adianta oferecer uma educação que não permita que o indivíduo faça suas
escolhas pessoais sem ser julgado pelo senso comum.
É
somente pela responsabilidade do Estado com a Educação Pública, que se é capaz
de promover as liberdades humanas e garantias individuais, dentro de um grande
e complexo grupo distinto de pessoas que carregam em sua historicidade
características comuns.
A
Educação Pública deve tornar o cidadão livre do poder do Estado, deve tornar o
cidadão livre para suas escolhas individuais em sociedade. O Estado deve criar
pensadores independentes de seu controle, que entendam e respeitam os direitos
humanos, mostrando a necessária, e totalmente viável, capacidade da realização
individual construída com a diversidade.
Concluindo,
é com a Educação Pública e apenas com esta garantida pelo Estado, que é
possível oferecer uma liberdade libertária em condições dignas de vida, para
que o indivíduo seja capaz de se aprimorar e se desenvolver, e sendo a ele
oferecido o conhecimento, o saber, o ser capaz de absorver, interpretar,
interagir, reagir e mudar, apenas assim estaremos no caminho certo para o
desenvolvimento humano. Do contrário, sem a Educação Pública Libertária que
deve ser promovida pelo Estado, estaremos sobre controle de interesses escusos
e financeiros de alguns poucos detentores de representação pública e capital.
Precisamos
quebrar a relação de opressão que resiste ao longo dos anos, revestida com a
roupagem de poder. Precisamos buscar o que é proibido, descumprir ordens,
rebelar para realmente romper com uma dominação excludente das mais variadas
formas, mas a principal, a exclusão dos direitos humanos aos pobres.
E é por isto que o Estado que não é democrático
teme e combate às Universidades Públicas, pois são verdadeiros criatórios de
rebeldes socialistas, rebelde neoliberais, rebeldes de direita, rebeldes de
esquerda e rebeldes que não tem uma posição definida. É com a Educação Pública
que se forma pensadores que estão dispostos a contestar as privações dos
direitos humanos fundamentais coletivos e individuais. É dentro do campo das
escolas públicas que os pensamentos são discutidos com paixão e argumentos. Que
os opostos dão as mãos na luta de uma causa maior que posições político
partidárias divergentes, e se rebelam.
Não há mudança sem educação. Não há mudança sem
Educação Pública garantida pelo Estado. Não há opressão e subserviência perante
o conhecimento. Não há silêncio enquanto direitos humanos não são respeitados
em uma sociedade que seus indivíduos tenham a liberdade desenvolvida dentro de
si, e não dada ou promovida. A Educação Pública garantida pelo Estado é o que
torna os eleitores serem cidadãos do mundo, pertencentes a humanidade, que se
relaciona solidariamente e se preocupa com as condições de seu igual na
Inglaterra ou na África.

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