segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Ribeirão da Neves/MG: Pesquisa para além de suas penitenciárias

Foto retirada de site de busca sobre o título:
Ribeirão das Neves Completa  anos de emancipação.

A globalização mudou significativamente a vida dos moradores das cidades. O comércio que antes era local     e regional, assumiu uma nova dimensão territorial, trazendo com sua expansão, significativo desenvolvimento por todo planeta, e alterando profundamente, para muito além da economia, a forma que as pessoas se relacionam. Contudo, a permanente urgência de uma tecnologia sempre inovadora, que criasse formas mais eficientes de comunicação, reduzindo tempo e aumentando o lucro, também possibilitou que conteúdos sem o devido filtro da veracidade, chegassem em alta velocidade, inundando de informações de todas as partes a vida dos cidadãos nestas cidades. Esta alta disseminação de conteúdo, tornou fácil transformar qualquer informação em verdades absolutas, provocando um efeito de ‘contaminações coletivas’ por meio de percepções, muitas vezes negativas, que sem a devida investigação, em última análise, não passam de notícias fantasiosas que impactam profundamente a vida dos cidadãos.

E dentre tantas transformações provocadas pela moderna expansão comercial, que é a globalização, o sentido de segurança assume novos significados, que por meio das inúmeras mídias sociais, vem alterando conceitos e dando nova roupagem a antigos medos nesta transfiguração da organização social.  A percepção das comunidades locais é afetada por não estarem mais isoladas. Estas mesmo distantes com suas características próprias, recebem e absorvem todo anseio das metrópoles mais distantes. E é neste contexto que este estudo se assenta:  o discurso popular que qualifica Ribeirão das Neves pejorativamente, em razão do conglomerado de penitenciárias existentes no município.

Além de observar os resultados inesperados provocados pelo impacto da globalização, é preciso ver o papel do Estado para além dos imperativos econômicos como medida de desenvolvimento social. Em qualquer época ou tipo de governo, sempre coube ao Estado o dever de cuidar das necessidades dos cidadãos, e a filosofia no decorrer dos séculos sustentou o papel do Estado como mantenedor da ordem social. Dentre tantos pensadores, com suas variadas vertentes no que diz respeito a influência estatal na ordem social,  citamos John Locke, teórico do liberalismo, que ressaltava os três direitos naturais: a liberdade, a propriedade e a vida, e que deveriam ser garantidos pelo Estado; Jean – Jacques Rousseau (XVIII) que defendia a liberdade como direito natural do homem, e também defendia que a organização social deve primar pela vontade coletiva do bem geral por meio do Estado; Charles de Montesquieu (1748) que defendeu a racionalização das ações do Estado como mecanismo de poder, separando e equalizando seus três poderes para uma justiça social; mas anterior a estes, e possivelmente mais atual que todos, temos Maquiavel, que descreve o Estado como uma espécie de poder que divide os cidadãos por meio de suas necessidades e fortunas: os que possuem dos que precisam, devendo cada qual ser tratado pelo Estado com critérios distintos.

Precisamos inter-relacionar o papel do Estado à segurança, ao considerarmos o que o filósofo Lars Svendsen,  diz sobre o medo, que “tornou-se a emoção que controla o público, atua como uma lente de aumento através da qual consideramos o mundo”, e é exatamente sobre “medo”, “insegurança”, “risco” e “violência”, expressões que carregam imagens distintas, mas usualmente aplicadas como sinónimos, onde se abre possibilidades para as manobras políticas quanto a verdadeira atuação do Estado e sua forma de governo. O atual Estado faz a clara opção pelo medo, e não pela segurança, como instrumento de controle, desenvolvendo o que E. Isin em The Neurotic Cisizen (pp. 217 – 235, 204) chama de um governo por neurose como prática política e de poder. Este tipo de governo qualifica o “cidadão neurótico”, que busca a todo tempo sua segurança absoluta, tendo aversão ao risco, sucumbindo a restrição de seus direitos e liberdades, consentindo com ações policiais violentas, como única forma de oferta de segurança.

As mudanças ocorridas em razão da modernização, tecnologia e inovação, trouxeram uma nova forma de se comunicar, provocando alterações nos significados dos termos utilizados. Dentro desta temática de pesquisa que é segurança pública e a ação do Estado, palavras como ‘segurança’, ‘sentimento de segurança’ e outras correlatas, necessitam de reflexão por expressarem anseios distintos. A insegurança e risco, por exemplo, são diferenciados. Segundo Z. Bauman em Globalization (pg. 11, 1998), a insegurança está associada a “transferência de ansiedade” como uma prática coletiva. Já o risco, ‘pode’ estar associado a um perigo real e ‘pode’ variar de pessoa para pessoa e dentro do tempo. Enquanto o primeiro é influenciado e determinado pela compreensão do coletivo, o segundo é mensurável e métrico, como expressa D. Campbell em Writing Security (pg. 9, 1998) que nem todo risco oferece um perigo real, o risco é relativo, mas concreto e mensurável.

Ainda, ao consideramos F. Furstenberg que diz que o sentimento de insegurança urbana é  uma preocupação da classe média (Public Reaction to Crime in the streets, pg. 601 610, 1971), e esta, sendo detentora de mais posses, precisa cuidar de seus bens por meio do aparato estatal, e ainda, sendo a elite de sansão junto ao Estado, expressa seu descontentamento nas mídias sociais, potencializando o poder de coerção estatal, para o estabelecimento da segurança por meio de divisões territoriais. Esta é reação advinda do temor da   aproximação do perigo real a seu espaço, quando sentem que, a periferia ou o campo, utilizarem-se dos seus vários meios de consumo. Contudo, a população das classes mais pobres, sentem os efeitos hostis e brutais da violência real, do perigo real, da força brutal estatal da segurança para manutenção do ordenamento social exigidos, validando a segregação territorial balizada pelo acumulo de riqueza e poder econômico.

Quanto a este último, a força brutal estatal por meio das autoridades constiuídas, trazemos o caso que, não sendo aprofundado nesta pesquisa, mas por sua relevância, é avocado como fundamento para alicerçar nossa abordagem. Em 04/08/2017, o Tenente-coronel Ricardo Augusto de Mello Araújo, recém empossado comandante da ROTA, a tropa de elite da PM – Polícia Militar de São Paulo, inicia sua entrevista à UOL, dizendo que é “Uma questão de se adaptar aos inimigos diários e ao território pertencente.” Ele afirma que a polícia tem forma distinta de abordar moradores da região nobre de São Paulo e da periferia. Para o ouvidor das Polícias de São Paulo, Júlio César Neves, a “declaração do Comandante foi infeliz, elitista e discriminatória”. Para o advogado Ariel de Castro Alves, conselheiro do CONDEP (Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana), “a declaração do comandante ajuda a legitimar a violência policial. Os ricos são tratados de uma forma cordial, e os pobres de uma forma violenta, como se fossem potenciais inimigos a serem abatidos”. (Folha de São Paulo, 24/08/2017, Caderno Cotidiano).
É fato que todos estamos sentindo os efeitos colaterais da globalização. A observação crítica e continuada dos resultados desta revolução estrutural na sociedade, viabilizará a construção de indicadores sociais baseados nestas constantes mudanças, que serão material de estudo permanente para a segurança e para formulação de políticas públicas. A população (com seus recortes sociais), o Estado e os impactos da comunicação em massa devem estar no centro das atenções que buscarão soluções justas para as diferentes necessidades de todas as classes sociais, de maneira equânime sem favorecer o clamor de alguns em detrimento de tantos.

Em uma sociedade que existe grandes diferenças econômicas entre os cidadãos, irá pairar a sensação de insegurança. A incerteza (transferência de ansiedade, como já aludido por Bauman), atua contra qualquer tolerância positiva às diferenças, e a maior diferença entre todas, é a discrepante diferença econômica e social, que ratifica comportamentos discriminatórios e excludentes. O conhecido ‘senso comum’ é baseado em julgamentos de uma determinada realidade a que certas comunidades são caracterizadas, como exemplo serem moradores de favelas, ou de aglomerados, ou da periferia, ou do subúrbio, ou da zona rural, ou em nosso caso de estudo, a cidade de Ribeirão da Neves. Este município cujo conglomerado de penitenciárias a faz conhecida como ‘Ribeirão das Trevas’, ‘Cidade dos bandidos’ e assim por diante. Bauman, diz que “num mundo cada vez mais inseguro e incerto, constituí uma grande tentação retirar-se para o refúgio seguro da territorialidade” (op. cit., 1998, 117), este pensamento reforça ainda mais nosso objeto de estudo, pois em outras palavras, em um mundo cada vez mais inseguro e incerto, as pessoas tendem a fugir e qualificar territórios onde não se sentem seguras por seus anseios, mas que não existe o risco real.

Assim, buscar-se-á confirmar se as frases, supracitadas popularmente sobre o município de Ribeirão das Neves são verdadeiras, se existe entre a população o conceito que denigre a cidade em razão de sua característica local quanto ao número de penitenciárias, se expoentes das áreas mais distintas, como as atividades jornalística, gestão pública, setor judiciário criminal, escritores e comando regional de segurança pública, compartilham estas opiniões ao abordarem o tema com suas percepções empíricas sobre ‘Ribeirão da Neves’, ‘Insegurança Pública’ e ‘Clamor Social’. Ainda, se faz relevante saber se os dados da segurança pública reforçam esta ideia e como os representantes comunitários veem a si e a comunidade em que estão inseridos. A pretensão deste estudo é registrar estes resultados, e que estes possam ser capazes de apresentar ações que venham a surgir destes múltiplos diálogos. Acreditamos, que ao compreender os conceitos vigentes, verificar a situação e a base de tais conceitos comuns, proporcionará possibilidades de criação de ações assertivas para a desconstrução do conceito negativo sobre o município de Ribeirão das Neves, caso evidenciem-se.

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