“O homem é um bípede sem penas”
– Platão (427 – 347 a.C.), filósofo grego.
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Criador: Nastasic, Crédito: Getty Images
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Retomando ao considerado na primeira parte desta proposta, o conjunto de reflexões do método pascalino ou pensamento geométrico para aplicação das pesquisas atuais, Pascal introduz seu tratado com duas recomendações para a busca da verdade, ou como entendemos hoje, as pesquisas científicas. Suas recomendações iniciais, a primeira “não se diga nada que não tenha sido anteriormente explicado o sentido e, a segunda, não adianta jamais qualquer proposição de que não tenha sido demonstrado por verdades já conhecidas”.
Além destas recomendações preliminares, também aborda o conceito de ‘definição’ como algo genuíno a um termo e, para não cair no uso inconsistente destes, recomenda-se que substitua mentalmente a “definição em lugar do definido”. Observa-se que reler de forma crítica o que se escreve é, sem dúvida para Pascal, um ato contínuo e persistente.
Pascal faz tais recomendações preocupado com a intensão dos que se utilizam de metodologias para criação de sofismas, aqueles que buscam por meio convincente a construção intencional de retórica que induz ao erro.
Não é possível precisar se Pascal, por estas recomendações, anseia despertar a leitura crítica para os estudos na busca das verdades motivadas: quer por questionamento das existentes, quer propondo novos saberes; se anseia capacitar os que buscam produzir conhecimento quanto a elaboração de suas ideias; se adverte à aqueles cuja intensão maliciosa, tendem aprender a arte do argumento para a sedução, com ideias organizadas, contrárias a verdade; ou tudo isto.
Fato é que Pascal comprometido com a busca da verdade, recomenda “em tudo definir e em tudo provar”. Este é, sem dúvida, o primeiro paradoxo que ele reconhece em seu método, quando da aplicação rígida e sem o uso da reflexão e argumentação, pode levar o pesquisador a se perder em suas reais proposições. São duas considerações a esta afirmativa.
A primeira é que, quando da disposição da busca pela verdade pelo pesquisador, se motivado pelo ‘tudo definir e tudo provar’, o levará a um momento que este encontrará o início elementar das hipóteses geradas. De forma que a busca constante por precedentes, ao chegar nos primogênitos das verdades elementares, será impossível defini-las para algo além por não careceriam de provas de sua gênese.
Ser aprofundador é encontrar “a termo primitiva que não é mais possível definir”. Está é a principal característica de um pesquisador – o mergulho cada vez mais profundo do precisar saber para saciar a inquietude das verdades estabelecidas (excetuando-se a própria geometria qual acreditava Pascal ser certa e passível definição).
O segunda é que, além desta intenção como característica inerente aqui destacada, este espírito continuamente curioso do pesquisador, o senso de não se tomar por satisfeito facilmente com matéria encontrada, é também saber que existem os axiomas, verdades inquestionáveis e universalmente válidas utilizadas como princípios na construção de uma teoria ou base para a argumentação, postulado, lei ou princípio. Posto isto, o pesquisador deve sentir em seu espírito até onde deve se permitir em seus questionamentos, mantendo em mente os seus objetivos de pesquisa e problema levantados e não buscando elucidar o óbvio.
É interessante ressaltar duas observações que se retirou até o momento do postulado pascalino. Nos termos primitivos que não demandam definições por carregarem em si mesmos todo arcabouço de conhecimento específicos, serão os verbos e substantivos. Os substantivos nomeiam a coisa, os verbos o que a coisa faz. Já o adjetivo é um atributo da coisa e o adverbio uma circunstância.
A relevância desta percepção é que por característica gramatical, os adjetivos e alguns advérbios ao serem utilizados nas pesquisas, deverão estar acompanhados por dados, referencial bibliográfico, ou outro recurso que apoie seu uso. Pois disto consiste no ato de pesquisar, o comprovar ou não, que tal coisa é assim e como se comporta, ou se é este de fato seu comportamento.
‘A mulher aqui é bonita.’ O termo mulher não demanda aprofundamento, por suposto que se refere ao sexo feminino do homem, e quanto a bonita, como substantivo, é o contrário do feio. Se percebe aqui os termos elementares qual Pascal se referiu em seu método “só supõe coisas claras e constantes pela luz natural e é por isso que é perfeitamente verdadeira, porquanto a natureza a sustenta na falta do discurso”.
Usar termos que dizem a mesma coisa para os substantivos, aceitos na construção literária, não é recomendado nas produções científicas. Academicamente se denomina de pleonasmo vicioso a mera assimilação de sinônimos (A mulher é bonita e bela). Contudo, sendo bonita um adjetivo para a mulher, então cabe provar o que a transforma em ‘bonita’, quais foram as bases de julgamento, com quais outras foi comparada, o que se entende por beleza e por feio e assim por diante.
Quanto ao verbo ‘ser’ tal qual o substantivo, não há mais definições para o seu completo entendimento. Já o advérbio ‘aqui’ precisa, como o adjetivo, de dados comprobatórios. Se precisa saber onde é ‘aqui’, ‘aqui’ comparado a quais outros lugares e o que torna o ‘aqui’ relevante no estudo ou no contexto da afirmação. Percebe-se que em uma frase corriqueiramente comum, pode existir tantas possibilidades de dados, que o pesquisador precisa estar comprometido ao objetivo e problema da pesquisa.
Assim exposto, abordemos o segundo paradoxo ressaltado por Pascal em seu método:
“Essa ordem, a mais perfeita entre os homens, consiste não em tudo definir ou em tudo demonstrar, tampouco em nada definir ou em nada demonstrar, mas em se manter nesse meio-termo de não definir as coisas claras e entendidas por todos os homens e de definir toda as outras; e ainda de não provar todas as coisas conhecidas dos homens e de provar todas as outras.”
Segundo Pascal, não é uma questão de definir ou não definir os termos, mas de não definir o que é evidente mantendo o foco nas outras que são de fato o objeto de pesquisa.
“[...] todos aqueles que agem metodicamente não impõem nomes as coisas senão para abreviar o discurso e não para diminuir ou mudar a ideia sobre as coisas as quais discorrem. Na verdade, querem que o espírito supra sempre a definição inteira com termos curtos que só empregam para evitar a confusão que a multidão de termos provoca. [...] porque esses termos designam tão naturalmente as coisas que significam, para aqueles que entendem a língua, que o esclarecimento que se gostaria de dar traria mais obscuridade que clareza.”
Pascal apropria-se de certa ironia ao demonstrar sua indignação, a ausência de logica, quando na procura por provar verdades elementares em um fato com Platão. Neste momento de seu trabalho, critica Platão ao questionar qual era a intensão do filósofo grego ao dizer que o homem é animal de duas pernas e sem penas.
“Qual a necessidade de se explicar o que entende dá termo homem? Já não se sabe o bastante que coisa é que se quer designar por esse termo? [...] Como se a ideia que tenho dele naturalmente, e que não posso exprimir, não fosse mais clara e mais segura que aquela que ele me dá por sua explicação inútil e até mesmo ridícula, uma vez que um homem não perde a humanidade ao perder suas duas pernas e um galo não a adquire ao perder suas penas.”
Um dos pilares mais importantes da filosofia e toda ciência moderna é questionado. Mas Pascal não inovou aqui, Diógenes de Sínope é quem engendrou tal ocorrência na Academia de Platão, pública de debates em falas não escritas.
Ao introduzir esta citação ao método para explicar os sentidos, Pascal demonstra a inutilidade de se buscar verdades elementares; que o ato de busca da verdade é o movimento eterno de questionamento, mesmo as ditas no campo do mais absoluto conhecimento; que precisa aprofundar-se até certo ponto, pois ao citar uma ocorrência histórica de Platão, se refere a uma base comum de conhecimento para quem Pascal escrevia, não caberia maior detalhamento do fato, o ‘espírito de quem lê, está comprometido com todo o resto.
Desta forma, esclarece Pascal que “as definições são feitas unicamente para designar as coisas que são denominadas e não para mostrar a natureza delas.” Pensar no exemplo supracitado facilitará este argumento.
Um desafio complexo para os pesquisadores, mas que precisa ser vencido com diligência e disciplina, além de um espírito eternamente insatisfeito. Buscou-se nesta segunda parte de considerações atuais sobre o Pensamento Geométrico de Pascal, o ampliar da percepção dos sentidos ao que disse “em tudo definir e em tudo provar” e seu paradoxo.
Esperou-se oferecer ao leitor a experiência da complexidade de uma breve experiência a cerca do sentido ‘aprofundamento’ nas pesquisas acadêmicas. Ensinam-se regras, mas não é possível dotar o indivíduo de um espírito curioso e perseguidor da verdade, algo que mantém sua constante insatisfação pela busca cada vez mais profunda por respostas às perguntas e confirmações ao que é.
Bibliografia
Do espírito geométrico: pensamentos / Blase Pascal; tradução Antonio Geraldo da Silva. – São Paulo; Lafonte, 2018. Título original: De l’esprit géométrique.

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