“Deus fecit ominia in pondere, in
numero et mensura.” (Deus fez todas as coisas segundo o peso, o número e a
medida).
– Livro Bíblico Sabedoria 11:21.
Nesta terceira
e última parte das considerações sobre o espírito geométrico ou método
pascalino para aplicação nos conteúdos às atuais pesquisas acadêmicas, será
abreviado a série de considerações matemáticas que Pascal utiliza como prova ao
seu discurso. Sendo matemático, entre outras coisas, foi ele quem deu início ao
estudo dos cálculos probabilísticos, cálculos mecânicos, geometria projetiva,
comportamento dos fluídos, cálculos indivisíveis e propriedade do vácuo. De
maneira que, por não dominar a matéria usada por Pascal em representação de sua
metodologia, buscar-se-á apontar os pontos mais relevantes ao desenvolvimento
do argumento de pesquisa.
Embora o
desenvolvimento científico atual torne os leitores mais capacitados a
compreensão de suas demonstrações, a maioria dos estudiosos de sua época não
possuíam a educação que permitisse isto. Para a divisão infinita ou estatística,
que são conceitos que se aprendem no ensino secundário ou médio, o mero
acompanhamento do discurso para seus pares era quase ou totalmente impossível.
Pascal após
discorrer sobre o conceito e aplicação do termo definição, considerado
anteriormente, valorizando e elevando sua aplicação e necessidade, demonstra o
paradoxo quando diz: “a falta de definição é antes uma perfeição que um
defeito, porquanto não decorre de sua obscuridade, mas pelo contrário de sua
extrema evidência, que é tamanha que, ainda que não tenha a convicção das
demonstrações, tem toda a certeza a respeito.”
Pascal defende
que as coisas que ainda não eram definidas, por sua existência, conteriam em si
todo o arcabouço da compreensão. Neste sentido para introduzir a defesa ao
infinito, utiliza de três palavras elementares que não cabiam tanto
aprofundamento: movimento, número, espaço e tempo.
“Numa palavra, isso quer dizer que
por maior que seja o movimento, o número, o espaço, o tempo, sempre há um maior
e um menor, de modo que todos eles se sustentam entre o nada e o infinito,
estando sempre infinitamente distantes destas extremidades.”
Pascal utilizou-se da verdade
evidenciada naturalmente, para explicar o que fugia a compreensão. Como na
figura, o simples cálculo entre a distância (d) e o tempo (t) determinam a
velocidade média, que é 5 cm/s. Quanto a esta equação básica para nossos dias não
há dúvidas. Contudo, como explicar o infinito partindo deste princípio era a
grande questão. Pascal explicou com detalhes que qualquer distancia menor que o
espaço considerado, vai até o infinito (10 – n > 0). Tal qual aplicando para
o tempo e o movimento.
Atualmente
para além do apelo ao exercício da lembrança das aulas de aritmética e
geometria, o que se deseja destacar neste exemplo é a capacidade de Pascal
explicar o conceito de infinito. O contato com
os números complexos, da criação de fórmulas específicas para índices, as
vastamente conhecidas no campo da matemática, as tão pouco conhecidas inerentes
de algumas profissões[1]
estão inseridas ao nosso cotidiano. Mas na época de Pascal era necessário
explicar o básico sem cair na exposição de argumentos superficiais ou banais.
Chegamos enfim, por meio do método de pensamento
geométrico, ao momento de correlacionar o problema de pesquisa, pelo método
escolhido para sua conclusão.
“É uma doença natural
do homem julgar que ele possui a verdade diretamente; e disso decorre o fato de
estar sempre disposto a negar tudo o que lhe é incompreensível, ao passo que,
com efeito, não só conhece naturalmente a mentira e que deve admitir por
verdadeiras somente as coisas cujo contrário parece falso.
É por isso que todas as
vezes que uma proposição é inconcebível é necessário suspender seu julgamento e
não negá-la a esse sinal [...]
[...] há diferença
entre não ser uma coisa e ser um nada.”
Pascal discorre durante todo o método para chegar a este
temo: a compreensão da dupla grandeza da infinidade. Que tudo “pode ser
infinitamente prolongado, segue-se que pode ser infinitamente diminuído”.
Reconhece que poder-se-ia abrir mão de vários argumentos
do quotidiano para expor seu método, como o fez em alguns momentos em seu
discurso, contudo ressaltando que “É triste deter-se nessas bagatelas, mas há
ocasiões também para se divertir com ninharias.”
Embora o problema de pesquisa pareça para o pesquisador
algo tão óbvio que as verdades lhe saltem aos olhos, é necessário ater-se ao
compromisso do discurso científico. Uma pesquisa não é a organização de complexos
argumentos para prova de opinião pessoal. E ao inicia-la, o pesquisador precisa
manter claro em sua mente que seu compromisso é com a busca pela verdade e não e
tão somente o desenvolvimento eloquente de suas crenças.
Muito pode-se abstrair do Método do Pensamento Geométrico
de Pascal. Tentou-se pontuar alguns que atingiram diretamente esta leitora.
Estes três textos são apenas dissertações sobre uma leitura, e de longe se
aproximam de uma estrutura científica.
Buscou-se evidenciar também que o conhecimento dos
clássicos é necessário ao pesquisador, e não apenas como conteúdo
bibliográfico, mas antes até, como forma de estruturação e condução do
raciocínio lógico.
Finda-se esta abordagem com o incentivo a leitura íntegra
do método pascalino. A leitura crítica e o olhar inquietante íntimo do
pesquisador que busca a verdade como uma resposta para a compreensão e melhoria
da vida humana.
“Pode-se ter três objetos
principais no estudo da verdade:
um, descobri-la ao
procura-la; outro, demonstrá-la ao possuí-la; o último, discerni-la do falso ao
examiná-la.”
– Blaise Pascal, séc. XVII
Bibliografia
Do espírito geométrico:
pensamentos / Blase Pascal; tradução Antonio Geraldo da Silva. – São Paulo;
Lafonte, 2018. Título original: De l’esprit géométrique.
[1] Deixo o convite às mentes
mais curiosas a leitura intriga do Pensamento Geométrico de Pascal como
incentivo, para que em contato direto com o discurso, perceba as nuances de seu
raciocínio.


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