terça-feira, 3 de março de 2020

Do Espírito Geométrico – Pascal Uma aplicação do Método pascalino nas pesquisas acadêmicas atuais. Parte I

Imagem do site Citações e frases famosas, em: https://citacoes.in/autores/blaise-pascal/

“Pode-se ter três objetos principais no estudo da verdade: um, descobri-la ao procura-la; outro, demonstrá-la ao possuí-la; o último, discerni-la do falso ao examina-la.” – Pascal (p. 11)

Blase Pascal, físico, matemático, filósofo e teólogo francês nasceu em Clermont-Ferrand, em 19 de junho de 1623, e faleceu em 19 de agosto de 1662, em Paris aos 39 anos.
Pascal em seu tratado sobre o Espírito Geométrico demonstrou, o que lhe parecia a forma mais eficiente na época, precisar um método que provasse a verdade de forma regular no sentido mais amplo desta palavra.
Primeiro, não empregar termos que de antemão não tenha explicado o sentido e, em segundo não adiantar qualquer proposição de que não tenha sido demostrada por verdades conhecida. Assentemos um instante nestas duas afirmações.
Ao postular uma pesquisa ou teoria, recomenda Pascal que não empregar nenhum termo (vocábulo, palavra, expressão, locução, frase, sentença ou oração) que não tenha sido explicado o sentido. A cautela está na explicação prévia da citação feita. Embora pareça ato elementar na conduta de pesquisa, a admoestação é pertinente ainda para os nossos dias.
Para alguns pesquisadores que estão familiarizados com seu problema de pesquisa, escrever como se tal busca de conhecimento não existisse no início do trabalho, sem deixar o caráter acadêmico da dissertação cair na construção comum, é um grande desafio a ser superado. Aqui podemos atualmente apontar os objetivos de pesquisa, que devem ser previamente explicitados.
Em segundo, a hipótese deve ser conhecida como uma verdade comum a todos ou demonstrada previamente. A proposição e o problema de pesquisa qual se busca responder no estudo, são coisas distintas.
Definiu-se dois aspectos que uniremos em um: sempre escreva algo que já esteja esclarecido previamente e, não pode haver um problema de pesquisa que não faça parte da vida social das pessoas, grupo de pessoas ou civilização, em qualquer época ou região no mundo.
Esclarecido estes dois aspectos iniciais, que retratado a um paralelo dos tempos atuais, Pascal explica o que ele entende por definição. Pascal refere-se apenas das “definições de nome, isto é, somente as únicas imposições de nome às coisas que foram claramente designadas em termos perfeitamente conhecidos” (p.14).
Isto é uma admoestação para utilização de palavras nas pesquisas científicas, quando de sua defesa, que estas não gerem dúvidas ao leitor do conteúdo. Uso de palavras que signifiquem exatamente o que devem significar, não deixando margens a interpretação paralela ou uma compreensão limitada do conteúdo.
Contudo Pascal também adverte a exceção desta regra quando diz “nada há de mais permitido que dar a uma coisa, que foi claramente designado, um nome que se quiser. Deve-se somente tomar cuidado de não abusar da liberdade que se tem de impor nomes, dando o mesmo nome a duas coisas diferentes” (p.14).
Dado como uma espécie de erro ou “vício”, a utilização de palavras iguais em estudos e ocasiões diversas, com significados distintos, pode ser corrigido pelo escritor ao utilizar mentalmente a definição no lugar da palavra.
O matemático usa um exemplo para demonstrar este método, a definição de “par”. Matematicamente “par” costuma ser ao que Pascal define com “aquele que é divisível em duas partes iguais[...]”, de forma que independente do contexto, ao utilizar o termo “par” o pensamento lerá como divisível por dois.
Evidentemente Pascal discorre sobre o espírito geométrico, logico e matemático. Contudo existem além dos estudos de exatas, conhecimentos mais aprofundados no que se chama hoje de Ciências das Humanidades. E este é primeiro obstáculo para construção dos textos acadêmicos dentro do método pascalino, pois não existe nada menos linear, ilógico e consagradamente lírico que o pensamento humano.
Contudo sua admoestação não está perdida, mesmo porque para Pascal reconhece que existe a liberdade e a possibilidade de se dar as coisas o nome se quiser. Podemos aplicar esta regra pascalina no contexto de nosso discurso, ajudando até mesmo evitar as repetições das palavras.
Tomemos o mesmo exemplo “par” utilizado por Pascal na seguinte frase: Aquele par estava a par que o resultado deveria ser um par, para que a justiça fosse feita. Ao substituirmos o termo pelo significado temos: Aquele casal de velhinhos estava ciente que o resultado deveria ser divisível por dois, para que a justiça fosse feita.
Considerando a temática do conteúdo a ser escrito, esta admoestação é pertinente. Se o meu conteúdo aborda os casais idosos, pode-se utilizar ‘par’; se a relevância está na certeza, consciência ou saber de, estar a par é utilizado sem problemas; tal qual se o discurso estiver no resultado, em ideia matemática, usar o que Pascal defini por par é praticável.
Sendo assim, ainda cabe absorver esta admoestação de Pascal da utilização de palavras dentro de uma pesquisa. A compreensão dos termos para os que lerem, deve ser comum e inconfundível, e na dúvida, aplica-se a regra pascalina: substitua a definição no lugar do definido.


Bibliografia
Do espírito geométrico: pensamentos / Blase Pascal; tradução Antonio Geraldo da Silva. – São Paulo; Lafonte, 2018. Título original: De l’esprit géométrique.




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